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UM SONHO DE VIDA

Quando dei por mim, já estava gerado. Vivo! Uma célula ovo completa, com todos os meus 46 cromossomos e uma ânsia de viver que não se cabia em mim. Por isso eu vivia. Sem nem mesmo saber porque, eu vivia, crescia e me multiplicava - fruto de um metabolismo acelerado.

Eu vivia e sonhava. Sonhava com o meu pai... com a minha mãe... os mesmos que naquele momento acabavam de me gerar entre êxtases de amor. Sonhava em ter uma família que eu amasse e que me amasse.

E assim, entre sonhos e divisões, eu fui crescendo. Fui planejando a minha vida nos mínimos detalhes: como seria... o que faria... o que diria... a quem amaria...

Eu sentia a minha mãe, em carne, e o meu pai, em espírito, juntos a mim. Era confortante saber que eles se amavam e que me amariam também quando soubessem da minha existência. E eu esperava este dia como quem espera o céu.

Mas já dizia o filósofo que tudo o que esperamos com muita ansiedade acaba por nos decepcionar. No meu caso, a decepção foi maior do que eu esperava.

Minha mãe não me amou. O meu pai me odiou. E os dois, em conjunto, se preocuparam com as conseqüências.

Atônitos, se perguntavam como tinha acontecido (como de a resposta não fosse óbvia) e se amaldiçoavam pela "má sorte".

E eu, imóvel e quieto no ventre da minha mãe, nada podia fazer, a não ser escutar e esperar. Era uma espera longa e um escutar indesejável, pois de ser humano, de filho desejado, eu passei a objeto de transtorno, a filho indesejado.

Desejei morrer! Desejaram me matar! Desejei não ter sido concebido! Desejaram não ter me concebido! Desejei não existir! Desejaram que eu não existisse!

Por fim chegaram a um acordo: Me abortariam. Eu agradeci e voltei a dormir.

Mas quem disse que eu queria morrer? Que se danem os meus pais, se posso chamá -los assim !!! Que se dane a sociedade!!! Que direito têm eles de me matar??? Por acaso sou eu um velho objeto que pode ser jogado fora depois de usado???

Pelos céus, eu quero viver!!! Eles não podem fazer isso comigo!!! O que fiz eu a eles para quererem me matar? Eu nunca fiz nada a ninguém. Nunca cometi nenhum crime. Ou será que viver é crime. Se é, maiores criminosos são ele que vivem há mais tempo.

Mas devo me conformar. Afinal, que sei eu da vida? Eles, ao contrário, são adultos, sábios, conhecedores da vida, donos da verdade. Se eles decidiram que não sou nada, é porque não sou nada mesmo. Se eles decidiram que sou apenas um mal que pode ser remediado, é porque sou mesmo. Se eles decidiram que nascer não vai ser bom para mim, é porque não vai ser mesmo. Se eles decidiram que devo morrer, é porque devo mesmo.

Mas será que não poderiam me deixar viver só um pouquinho? Será que o meu viver é tão prejudicial assim à "bendita honra" da minha mãe e à conhecida irresponsabilidade do meu pai? Se é, se o egoísmo é mais forte do que o amor, então que me matem. Estou disposto a me sacrificar. Afinal, o que é a vida frente aos preconceitos ?

Não! Não estou disposto a me sacrificar. A vida deve ser mais importante que os preconceitos e as conveniências. Eles não podem me matar!

Podem! Eles são fortes e poderosos. Eu sou fraco e indefeso. Nada posso fazer. Nada ninguém pode fazer.

- O problema, doutor, é que eu estou grávida...

"Pelo amor de Deus, mãe ! Não faça isso !"

- Eu entendo! Não era esta a hora para engravidar...

- Há como fazer a "coisa" sem riscos ?

"Eu vou morrer e ela ainda fala de riscos..."

- Naturalmente riscos sempre existem...

- Naturalmente !  E quanto à parte legal ?

"Quem sabe o que eu poderia ser se nascesse..."

- Infelizmente o aborto ainda não é legal no Brasil. Contudo, não é crime se ninguém souber...

- Em países civilizados ele é legal. Mas aqui...

"Agora morte virou sinônimo de civilização..."

- Realmente !  Mas eu espero que este subdesenvolvimento cultural dure pouco.

- Deus é grande !

"Sabe mãe, eu poderia até ser um grande homem se me deixasse viver."

- Mas a senhorita deve entender que, por motivos de ética, eu não posso fazer o aborto eu mesmo.

- Claro ! Eu já estava avisada.

"Já pensou na alegria que teria em me ver crescer forte e saudável ?"

- Não se preocupe! Não há perigo algum.

- Eu sei !  Quem me indicou o senhor me disse.

"Talvez não seja nenhum Einstein, mas prometo que farei tudo para fazê-la feliz."

- Quem me indicou?

- Minha amiga...

"Prometo não dar trabalho !   Serei bom filho... Sei que vou orgulhá-la, se me deixar viver."

- Ah !  Eu me lembro ... Veja que o serviço dela foi um dos mais complicados.

- Ela me disse.

"Diga a ele que desistiu, mãe !   Diga a ele que resolveu me deixar nascer...."

- Bom !  A senhorita está sabendo que depois não tem retorno ?

- Eu estou decidida.

"Salve-me mãe! Não deixe que me matem!

- Ótimo !  Vamos então aos detalhes. A senhorita deve procurar esta senhora aqui. Ela fará o serviço. No dia seguinte a senhorita deve me procurar e se internar por causa de hemorragia. Aí eu faço a curetagem !

-E em quanto vai ficar ?

"Não, mãe !  Não vá a esta mulher !  Ela vai me matar !   E eu não quero morrer !"

- Não se preocupe com isso! De qualquer forma sai mais barato do que ter um filho e ter que cuidar dele.

- É ! Isto é verdade !

"É mentira mãe !  Não acredite nele !  Eu não vou custar nada, não !"

- Bom doutor,...

"Pelo amor de Deus, mãe, não faça isso !!!  Me ame !!!  Não me mate !!!"

- ... até mais!

"Até nunca mais, doutor !   Até nunca mais !"

Eu esperei aquele dia como um condenado à morte que espera o dia da execução. Cada segundo valia por anos. Cada dia valia por séculos. E cada minuto de felicidade valia por meses de agonia.

Até que ele chegou !  Chegou num belo dia de verão que nada tinha a ver com um dia de execução. Mas são exatamente nesses belos dias que a morte resolve fazer sua ronda.

Minha mãe acordou cedo e partiu para a casa da "fazedeira de anjos". Cada passo seu era uma facada no meu primitivo coração. Cada esquina que passava era um pedaço meu que se arrancava.

Eu podia sentir o seu nervosismo. Ela tinha medo. Contudo, por mais que pudesse tentar, ela nunca poderia imaginar o terror que tomava a minha alma.

Ao chegar lá, fomos atendidos por uma senhora que nos mandou deitar numa cama velha. Meu coração palpitava freneticamente dentro do meu peito e o meu terror aumentava a passos largos frente àquela diabólica figura humana. Eu escutava os seus passos pela casa, fortes e lentos, e o seu traiçoeiro lavar de mãos.

De repente, um som seco de uma sonda se fez ouvir. Ele estraçalhava os meus ouvidos e esquartejava a minha mente com a idéia, cada vez mais próxima, da morte.

A sonda se aproximava lentamente e eu sentia a sua presença. Era uma terrível sensação de vazio, de falta, de dor que ia me envolvendo. E ela, aos poucos, ia me envolvendo, sem contudo me tocar. Eu tentava gritar, mas não conseguia. Tentava fugir, mas nenhuma fuga havia. Tentava viver, mas só morria.

Finalmente ela deu o seu bote fatal e, como uma cobra, esquartejava os meus membros, estraçalhava o meu corpo, esmagava o meu cérebro. Foi uma dor horrível que tomou conta de todo o meu ser e eclodiu num último e desesperado grito de dor... de ressentimento... de protesto.

Agora, morto estou! Mas mais mortos do que eu estão os que continuam "vivos".

F.C.Dafico - 1980

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