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VELA E (CH)AMA

Havia uma luz no fim do túnel, mas era muito fraca. Era uma vela ! Uma vela branca como a luz que a portava. Na vela, uma inscrição luminosa que acendia e apagava como luzes de natal. Acendia... apagava... mudava... Acendia... apagava... mudava... Acendia... apagava... mudava... De longe se lia sua inscrição:

 

 

A trêmula chama da vela (:) vela e ( ch)ama para a morte

 

 

Houve um homem e uma vela. Ou seria uma lanterna ?  Não importa: o que importa é que o homem que ouve com uma vela, um homem que cruzou o mundo à procura de um outro honesto, agora cruzava o túnel. E quanto mais se aproxima da vela mais forte e mais intensa se tornava a fraca chama de luz, até que, por fim, ofuscava os olhos do louco caçador de honestos.

O fim do túnel era a saída de um teatro. Lá fora, um mundo nada parecido com o interior do outro lado. Ao longe, todas as cores: os espectro e mais algumas se faziam ver na abóboda celeste. O Sol e Lua brilhavam em concordância por todos os lados e todas as partes. O piso era constituído de estrelas e nuvens, mas não se andava sobre ele: flutuava-se.

Na verdade, tudo (a não ser a vela, que ficava sobre um gigantesco pedestal de ser perder de vista) flutuava naquele "lugar": da mais alta cordilheira de aço polido, à mais insignificante esfera de metal.

"Meu Deus !" pensou o homem " Estarei eu morto ?"

Não estava !  Talvez agora estivesse mais vivo do que nunca !   Nunca !?! Palavra estranha de se sentir naquele momento. Estranhamente ela rimava com aquele... lugar: sereno... eterno... belo...

Na verdade, em todos os seus anos de vida, jamais vira um lugar tão maravillhoso. Uma estranha música enchia-lhe os ouvidos de felicidade. Um odor de rosas penetrava-lhe narinas a dentro, dando-lhe toda a calma do mundo. Contudo, sentia medo. Estranhamente, aquele lugar lhe parecia familiar.

Olhou para cima e avistou o Sol e Lua a brilharem por todas as partes: os anjos protetores da Terra. Mas entre eles pairava uma estranha nuvem. Não era uma nuvem: era um aglomerado de esferas cinzo-transparentes a flutuar.

O homem levantou o braço, como se tentasse alcançá-las, mas elas estavam muito longe. Contudo, como se adivinhassem a intenção do homem, foram caindo... pairando lentamente sobre sua cabeça. E à medida que se aproximavam, escureciam o ambiente, tornando-o cinza e tenebroso.

De tamanhos variados. elas foram lentamente envolvendo-o, como se quisessem absorvê -lo. Cercado por todos os lados, ele gritou como nunca havia gritado. Só então percebeu o que eram as esferas. Gigantescas bolas de sedução, eram elas as desgraças do mundo. Cinzas, como não poderiam deixar de ser, elas escureciam o mundo com prostituição, fome, guerras, ódio, trânsito, metrópoles, poluição etc. Masturbação humana na forma de ser pensante, decadência espiritual do Homo sapiens, apesar de imateriais, elas envolviam o homem... sugando-o... absorvendo-o... como uma ameba à sua presa.

Tentou fugir !  Mas apesar de fisicamente poder atravessar facilmente aquele aglomerado de plasma massificante, não consegui se mover. Resignado, deixou-se então absorver pelo sistema.

Então, como por encanto, elas foram se afastando, deixando aos poucos que o Sol e a Lua banhassem, com os seus raios, a mente do homem. Aos poucos o homem pode tornar a ver aquilo que transcende às fúnebres figuras esferóides pertencentes ao teatro do outro lado túnel.

Vendo-se livre das terríveis recordações materializadas de um teatro de vida passada, o homem deixou-se flutuar até a parte mais polida da imponente cordilheira de aço forjado na verdade. Mira-se e contempla o seu reflexo. Não se reconhece, contudo, na verdade da distorcida imagem do espelho que não mente.

Aquele rosto não era o seu: Aquele era o rosto de milhões de seres humanos concentrados no seu.

Percebeu, então, que estava nu. Mas, ao contrário da primeira vez, não sentiu vergonha da sua nudez. Se com a maçã perdera a pureza original, com o passar dos milênios, perdera também a vergonha original. Não mais sentia vergonha da podridão do seu corpo.

Olhou para baixo e admirou o seu físico: linhas perfeitas... porte majestoso... nascera para ser rei !  Olhou para o espelho e não se reconheceu mais na imagem. Ao invés do que vira antes, via agora um aglomerado de vísceras pegajosas.

Um cheiro de carniça tomou-lhe as narinas. Olhou para baixo e notou que a primeira visão que tivera do seu corpo eram uma miragem. Ardendo em podridão, o seu corpo mostrava as marcas dos milênios. Tomado de sujeira, o seu corpo fedia e atraía as moscas da existência, que vinham lamber-lhe as feridas. Pelos cortes da vida, o homem expelia vísceras mal cheirosas, que atraíam os carniceiros da eternidade.

Então, enquanto se admirava no espelho da verdade, viu algo com que jamais sonhara. Sob uma cachoeira de leite e mel, a mais linda mulher que jamais existira. O homem volta-se, olha em volta, procura, mas nada encontra. Vira -se para o espelho e pergunta:

- De onde vem tão maravilhosa imagem?

Não obtendo resposta, atira-se ele contra o mesmo. Então, quando dá por si, está voando em direção a uma ilha flutuante : um Jardim do Éden perdido no espaço.

Como um lobo atrás de sua presa, o homem parte para a bela. Esta, vendo aproximar tão repugnante fera, esconde-se entre as espumas da cachoeira, a fim de esconder suas riquezas. Mas a fera é impiedosa e, mesmo ante o medo da bela, parte para a sua presa.

Por fim, a bela, resignada com o seu destino, levanta-se e se oferece ao deleite dos olhos da fera.

- És tu a quem chamam de Homo sapiens ? - indagou ela - Meu nome é Géia. Sou tua serva e tudo o que é meu é teu. És o meu rei e senhor, e a mim só cabe obedecer aos teus desejos.

O homem aproxima-se e a toca... rouba-lhe as riquezas... destrói-lhe as belezas... arranca-lhe os frutos... tira-lhe a vida...Por fim resta apenas um corpo inerte, sem vida.

O leite e o mel param de correr. As flores murcham. A relva verde transforma-se em asfalto quente. Tudo morre e dá lugar a um inferno de cimento e aço. Só o Sol e a Lua permanecem em seus postos a presenciar, em silêncio, o crime humano.

Da bela, resta um corpo inerte... um cadáver em putrefação... poeira cósmica... radiação nuclear...nada.

Escuta-se então a voz dos séculos:

- Homo sapiens !  Levanta-te e escuta a tua sentença !

A voz ecoa pela eternidade e o homem treme sobre as bases. Nervoso e com medo, ele grita, esbraveja, procura a voz pelo infinito.

- Quem fala ???!!!  Apareça se tem coragem !!!

- Aqui, Homo sapiens. - fala a voz do alto do pedestal.

O homem força a vista e vê a vela crescer em tamanho e luminosidade. Depois, na mais incrível das metamorfoses, ela se transforma num homem.

"Mas aquele sou eu !!!", murmurou baixinho o homem. Mas não era. Aquele era o homem com uma vela, o homem cruzou o mundo a procura de um outro honesto, o homem que morreu ao ser absorvido pelas amebas do mundo. O que agora era chamado às contas não era um homem, mas milhões deles. Era a degeneração de um homem. Era a degeneração de uma espécie. Era um pensamento monstro destruidor chamado Homo sapiens.

- Homo sapiens !  Levanta-te e escuta a tua sentença - fala o homem que ouve com uma vela.

- Quem é você ?  Que lugar é este ? - pergunta o homem.

- Eu sou a consciência do homem:  Eu sou a trêmula ( ch )ama da vela! Sêde bem vindo ao inconsciente da espécie humana !

- O que querem comigo ? - pergunta o homem assustado - O que fiz eu ?

- Você nasceu !!! - disse o Sol.

- Você existiu !!! - disse a Lua.

- Teu crime, Homo sapiens, foi ter vivido !!! - disse a (ch)ama da vela.

- Você construíu um inferno num paraíso !!! - disse o Sol.

- Você amou o ódio e a destruição !!! - falou a Lua.

- Tu cultuaste o demônio que existe em ti !!! - disse a (ch)ama da vela.

- Você estuprou Géia !!! - disse o Sol.

- Você desvirginou sua própria mãe !!! - falou a Lua.

- Tu mataste tua serva, destruíste o planeta a ti confiado - disse a (ch)ama da vela. - Que castigo mereces receber ?

- Aniquilação seria uma dádiva ! - disse o Sol.

- A solidão seria um prêmio ! - falou a Lua.

- Escuta então tua sentença ! Condenado estás a viver no inferno tecnológico que criaste, a conviver com teus semelhantes, a ser um animal político, a crer em ideologias, a criar Estados e Nações, a fazer Guerra e Revoluções, a lutar pelo que acredita não ser verdade, a pensar e nunca encontrar uma resposta.

- Pelo amor de Deus !  Não me mandem de volta - implorou o homem.

- Tua sentença já foi pronunciada. Pensarás e jamais encontrarás a resposta, pois esta ficará enterrada aqui no inconsciente da espécie. Eventualmente, alguns indivíduos a encontrarão, mas nada mudará para ti. Agora, vá!

Então o homem, conduzido pelo seu destino, entrou no túnel e partiu para o teatro.

Para trás ficavam a resposta e a esperança. Em forma de um gigantesco coração, ela reluzia e brandia a toda voz, em todos os idiomas possíveis, a palavra AMOR. Só que não podia ser escutada pelo homem: cego, surdo e mudo à verdade.

À porta, a vela guardava a entrada:

 

A trêmula chama da vela: vela e chama para a morte

A trêmula chama da vela: vela e ama para a morte

A trêmula chama da vela vela e chama para a morte

A trêmula chama da vela vela e ama para a morte.

 

Mas antes, um Grito... um Choro de Criança...

Nasceu o homem!!!

F.C.Dafico - 1981

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