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O CONCERTISTA

O CONCERTO

Sentou-se ao piano e pôs-se a tocar. Lentamente... como algodões a tocar as teclas, seus dedos acariciam o sons virginais que saem do instrumento. Doce... a música fluí pelo seu corpo como um rio de leite e mel, a molhar os seus lábios com a harmonia dos deuses.

Na platéia, silenciosa e marcial, os quase inaudíveis sons retumbam nos corações dos que ouvem. Pasma... o murmúrio do pensamento corre de olho em olho.  Comentário geral, a boca aberta da imaginação, o coração palpitante a acompanhar angelicamente a música: Ele é um gênio!!!

A música corre e, a medida que ela se faz ouvir, o mundo muda à sua volta. Surgidas do nada - ou do tudo - a transparência toma forma. A se moverem harmoniosamente ao ritmo da música, minúsculos entes correm o salão por entre os seres materiais.

Ninguém os vê, ninguém os sente; mas ele os vê, ele os sente. Por isso, toca !   Seus dedos correm o teclado como o vento a acariciar as folhas-cabelo da árvore amada. Mágicos duendes sobre seu piano, a encantar com seu toque cada nota arrancada do seu instrumento.

Alegram-se todos !!!  A música se torna rápida e festiva. Todos dançam na transparência da imaginação. Ele levanta o rosto e sorri para os entes. Transparencia-se em dois: a tocar, levanta de si mesmo seu outro eu e começa a dançar.

 

A CIDADE

A cidade se abre em luz pelas paredes da sala. A dançar... correm os carros velozes por entre o concerto. Apressadamente as pessoas passam de um lado para o outro da platéia, como lhes cabe à hora do rush.

A música se torna sombria e enfumaçada. Abaixando a cabeça sobre o teclado, arranca do piano notas doidas como a própria vida. Os entes já não dançam, mas o seu outro eu, o dançante, gira como um louco para o espanto dos olhos atônitos do nada. A cidade é bela em sua negritude.

Centrado no meio da mais movimentada avenida, ele e seu piano tocam a cidade em sons, dançam por entre buzinas e, com gracejos, tentam parar a máquina humana que relogeia aqui e acolá. Sua alma se enche de angustia: na solidez de sua solitude, ele ama a máquina enfumaçada que, mesmo desumana, é o seu habitat natural.

A música prossegue na dissonância da angustia .

- Quem é ele?

- Um músico...

- Felizmente é apenas um músico !!!!...

- Por que o matou?

- Ele estava no meio da avenida. Eu buzinei e ele tocou para mim. Então eu acelerei e passei por cima.

- Sorte sua de não ter amassado o caminhão. Aquele piano parecia bem resistente.

Os entes, atônitos com a magicidade dos sons, rapidamente capturam a mente do artista. Pára então o dançante e vagamente olha o ocorrido. Fria e marcial, a platéia aprecia silenciosa o sangue da música que corre. Debruçado sobre o piano, seus dedos correm pelo teclado. Ele é um gênio!!!.

 

A MULHER

Forte, mas doce; a melodia embriaga os ouvintes. Novamente ele levanta a cabeça e sorri. Nos seus lábios, a estranha sensação de não estar só, mesmo na solidão. À sua frente, magistralmente sentada sobre o piano, a mais bela mulher que seus olhos desejariam ver.

- Quantas vezes já disse que te amo?

- Não precisa dizer !  Sua mente não me tem segredos !

Um sorriso enche-lhe a face. O dançante aproxima-se e a tira para dançar. Ela o olha fixo nos olhos e saem os dois a flutuar pelo espaço. Seus dedos flutuam pelas notas do sonho. O sorriso agora é dele.

- Você só existe em minha imaginação. Por quanto tempo poderei me contentar com isso?

- A mulher perfeita só existe nos sonhos dos homens que a idealizam. A mulher dos seus sonhos será sempre uma imagem enevoada e luminosa na sua imaginação.

A música vai se tornando lenta, até quase parar. Por mais que fixe o olhar, o seu rosto não se define. É como se fosse todas em uma, sem ser nenhuma das que já conhecera antes. Mas ele a conhece desde que se entende por gente. Ela é a amante perfeita, a namorada mais bela, a conselheira mais sábia. Ela é aquela que nunca o abandonou e nunca o traiu. Ela é aquela que saberá sempre confortá-lo, mas também saberá repreendê-lo quando preciso for. Ela é apenas a música mais bela que lhe enche os ouvidos nos momentos de solidão.

 

A MORTE

A medida que as últimas notas se aproximam, ele se debruça mais sobre o teclado do piano.

Vagarosamente os sonhos se desfazem em névoas. Só o piano resta, pois só ele existe.

A música se torna doída, como a despedida que se aproxima. No piano da vida toca-se a obra das obras, e em cada acorde a dolorosa sensação de que pode ser agora a nota final.

- Já tentou o suicídio antes ?

- O normal !  3 ou 4 vezes ao dia !!!  Viver é um suicídio...

Afinal, quem é ele, senão apenas mais um reles tocador de pianos ?  Quantas vezes não poderia ter dado a última nota ?

- Já amou ?

- A vida !!!

- Mulheres ?

- Todas e nenhuma !  Só aquela com quem sonhei...

- Desejo ?

- O piano foi minha vida !!! Que não seja eu tocar a última nota...

E enquanto tudo não passou de uma grande farsa, a peça de uma vida inteira vai chegando ao fim. Ali tocou-se notas de alegria e tristeza, sonhou-se com o amor e com a felicidade, tropeçou-se em si mesmo na pressa tecnológica, executou-se a grande comédia da vida. Impiedoso, executa o penúltimo acorde !  Mas não consegue executar a última nota....

 

A ÚLTIMA NOTA

Levanta-se e agradece ao público !   Mas o silêncio toma conta do salão !  Todos ainda esperam a última nota !

Então o outro ele, o dançante, volta ao palco com uma bandeja. Sobre a bandeja, um revolver que ele oferece ao primeiro. Mas o primeiro recusa...

O dançante então pega o revolver, coloca-o contra a têmpora do tocador... Executa-se a última nota...

A platéia, então, explode em aplauso e vivas. Sobre o palco, jazem os dois, ensangüentados em transparência, semi-fundidos novamente.

- Não gostei muito deste final !   Acho que faltou um pouco de... de...  de...    vida !!!

- Mas viver a vida não teria sentido se, como nas músicas, ela não acabassem sempre numa nota final...

F.C.Dafico - 1982

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