Literatura : Contos
O PACIFÍSTA
Sua única lembrança da infância: seu pai
estirado no chão com uma bala entre os olhos. Silêncio ! Sangue ! Dor !
Morte ! Seu pai estava morto. Era só o que se lembrava dos seus anos de
inocência.
Quando o primeiro homem pisou na
Terra, ele matou para viver.
Mas não era por isso que ele se tornaria um
selvagem. Ele era um homem, um advogado, e como homem e advogado ele sabia que não era se
remoendo em ódios que ele chegaria ao seu tão amado pai. Marte teria de se contentar com
uma só morte.
Aliás, como cristão e pacifísta que era,
defensor dos direitos humanos, jamais poderia tirar a vida de um semelhante seu, nem por
ódio, nem por vingança, nem por justiça, talvez nem mesmo em defesa própria.
Pelo menos pensava que não !
Mas o que pensamos que somos não é o que
realmente somos. E tão certo quanto o fato dele acreditar ser incapaz de matar é o fato
de ser impossível prever como reagiria frente à morte. Mas naquela noite ele acabou por
descobrir.
Quando o segundo homem pisou na
Terra, já não havia necessidade de matar. Mas ele matou.
Arrombou a porta e penetrou na casa. Estava
disposto a tudo - até a matar. Já matara antes e não se arrependia - no fundo até
gostava. Mas agora era diferente: estava velho e cansado. Roubava agora para sobreviver,
não tinha mais por prazer nisso.
Seus primeiros passos rumo ao desconhecido
pareciam os mesmos de todas as noites. Contudo, havia algo de familiar naquela casa. Era
como se já estivesse estado ali antes. Mas não era verdade ! Nunca estivera por
aqueles lados !
Mas mesmo assim, havia algo de familiar
naquela casa. Ele podia sentir o sangue escorrendo pelo chão, acusando-lhe a
consciência. Um arrepio correu lhe a espinha ! Era como se os fantasmas de suas
vitimas viessem lhe cobrar o tributo final.
Naquele mesmo instante, o primeiro homem, o
pacifísta, aquele que se recusava a matar - ou pelo menos, sujar as mãos na matança -
acordou. Ouvia passo ! Havia um ladrão em casa !
Tentou chamar a polícia, mas o fio do
telefone havia sido cortado. O que fazer ? Sem dúvida o melhor era bancar o
covarde: trancar a porta e deixá-lo levar a casa. Mas e se ele não quisesse só os bens
materiais ? E se ele invadisse o quarto das crianças ? E se uma das crianças
acordasse ?
Não ! Ele não podia ficar parado: Era
preciso tomar alguma atitude. Mas o quê ? Ele não tinha armas - era contra
qualquer espécie de violência.
Sentiu vontade de chorar ! Sentiu-se
indefeso diante do perigo - ele que sempre foi conhecido como um dos maiores e mais
corajosos soldados da paz. Logo ele, agora sentia medo da violência.
Lembrou-se do seu pai morto - uma bala entre
os olhos - ao tentar defender sua família num assalto. Por anos a fio ele teve pesadelos
com aquela cena, e agora ela voltava com muito mais força e terror. Via-se ele no corpo
de seu pai - morto - e à sua frente - sorridente - o assassino. Ainda hoje aquele rosto
sorridente aterrorizava as suas noites.
Mas o que tem de ser feito, tem de ser feito
! Não podia deixar sua família indefesa. Procurou algo com que pudesse
atacar o ladrão. Encontrou no banheiro um pedaço de cano de metal. que o encanador
esquecera. Serviria !
Beijou sua esposa, ainda dormindo, e saiu
como quem parte para a morte. Pé ante-pé ele deslizou pela casa a procura do seu
inimigo. O medo dominava-lhe a alma. Não queria morrer, mas definitivamente não mataria
! De certa forma sentia-se como o cavaleiro andante que parte para lutar com o dragão sem
poder, contudo, atacá-lo. Mas um pacifísta não mata !!! Marte teria de se contentar com
uma só morte.
Encontrou-o na sala de jantar a remexer tudo
a procura de alguma coisa de valor. A respiração cessou. Os músculos enrijeceram. O
coração parou. Sobre a mesa: ao alcance da mão do ladrão havia um reluzente 38. Era
preciso agir rápido !!! Mas e a coragem???.
Então, como um lince, sem nem ao menos saber
o porquê, lançou-se sobre o inimigo, sentando-lhe uma possante pancada na cabeça.
O homem veio ao solo uma garrafa de vinho tinto que tinha na mão.
O pacifísta levantou-se, acendeu a luz e
observou a sua obra. Vinho e sangue espalhavam-se pelo chão. O homem caído parecia
morto. Pela primeira vez na vida o pacifísta havia sido violento. Contudo, ao contrário
do que imaginava, sentia-se extremamente bem !!!
Mas era preciso cuidar do preso. Buscou uma
caixa de primeiros socorros e fez-lhe um curativo no corte da cabeça. Depois, amarrou-lhe
as mãos e os pés com esparadrapo. O preso começava a voltar a si.
Quando o terceiro homem pisou na
Terra, matar já era lei.
Era ele o rosto que aterrorizava as noites do
pacifísta. O mesmo sorriso, o mesmo olhar, o mesmo 38. Talvez um pouco mais velho, mas
era ele.
Aquele homem ali parado diante dele,
amarrado, indefeso, era o mesmo que matara o seu pai. Estava velho cansado, mas ainda nos
olhos o mesmo brilho assassino e nos lábios o mesmo sorriso cínico de 25 anos atrás.
- Tenho sede - disse o ladrão de súbito.
"Tenho sede". Seu pai
dissera isso 25 anos antes.
"Que tenho eu com isso ?".
Replicara o ladrão então .
- Que tenho eu com isso ? - disse o
pacifísta .
As situações se inverteram. Após 25 anos,
estava ele novamente frente a frente com o assassino de seu pai. Agora entretanto era ele
que estava por trás de uma arma.
Seus sentimentos se confundiam. Por um lado
tinha dó daquele homem ali sentado. Por outro, ódio e raiva. Tinha ímpeto de
descarregar aquela arma no corpo "daquele miserável". Por fim, odiava a si
mesmo por ter ódio.
Com a arma apontada para o homem, o seu dedo
acariciava o gatilho como um artista à sua obra. Aos poucos o seu ódio tomava dimensões
nunca imaginadas. Ele fuzilava o preso com um olhar congelante.
Este, contudo, permanecia inalterado às
demonstrações de ódio e medo do seu carcereiro.
Em silêncio os dois homens se contentaram em
olhar um para o outro. Um com ódio e medo. O outro com frieza e cinismo. Provavelmente
permaneceriam assim a noite inteira se ninguém os interrompesse. Mas sempre existe
alguém.
- Papai ! O que está acontecendo ?
"Papai ! O que está
acontecendo ?" Também dissera o pacifísta 25 anos antes.
- Vá para o seu quarto. Tem um ladrão aqui.
"Não venha aqui. Temos um ladrão
em casa".
- O que é isso moço ! Eu estou
amarrado. Não posso fazer mal ao garoto. Garoto ! Venha aqui !.
"O que é isso moço ! O
senhor não está em condições de dar ordens. Garoto ! Se você quer bem ao seu pai,
venha aqui !".
- Bonito garoto esse seu moço !
Quantos anos tem ? Cinco ? Seis ?
- Não é da sua conta ?
"Tem cinco anos".
- Calma ! Não precisa ficar nervoso !
É que o meu neto tem mais ou menos o tamanho do seu filho.
"Cinco anos... Sabe ? Eu tenho
um filho dessa idade".
- Escuta ! Por quê você não cala a
boca ?.
"Escuta ! Por quê você não
leva o que quer e vai embora ?".
- Você quer o seu filho muito bem, não é ?
É claro. Eu também gosto muito do meu neto....
"Você gosta do seu filho, não é
? É claro. Eu também gosto do meu..."
Quando o último homem pisou na Terra ele
se matou. Já não havia a quem matar.
Aos poucos, aquela conversa mole ia
subindo-lhe à cabeça. Contudo não tinha coragem de puxar o gatilho. Mas o outro tivera,
25 anos atrás.
"O que o senhor pretende fazer
comigo ?".
"Matá-lo, naturalmente. Assim você
não poderá me reconhecer no futuro."
- O que o senhor pretende fazer comigo ?
- Vou chamar a polícia. Ela se encarregará
do senhor.
"E minha família ?".
"O senhor gosta muito dela, não é
?"
- O senhor gosta muito da sua família, não
é ?
"O senhor não gosta da sua ?"
- Como o senhor da sua !
"É! Não é bom matar toda uma
família assim. Talvez só um ou dois..."
- Se gosta tanto dela assim então não me
entregaria para a polícia.
"O que você está pretendendo
?"
- O que você quer dizer com isso ?
"Talvez eu não mate você e sua
família, mas só o garoto !"
- Eu sei aonde moram... Quem são... sei tudo
sobre vocês ! Mas vocês nada sabem sobre mim. Vocês chamam a polícia, ela me
leva, e em poucos dias estou na rua de novo. Então eu volto ! Posso matar a todos
sem que possam fazer nada ! Acho que vou matar só o garoto...
"Seu porco!!! Eu vou matá-lo
!!!" , gritou o pai voando em direção do ladrão.
Num intervalo de 25 anos, um mesmo tiro se
ouviu duas vezes. Num mágico balé aéreo, a bala cortou os céus e veio se alojar no
entre-olhos de sua vítima. Sangue, em jatos, correu como rio, inundando a sala, se
misturando com vinho derramado. Miolos arrebentados voaram por todos os lados num
fantástico show de destruição e prazer.
Novos tiros se fazem ouvir. A cada tiro o
pacifísta morto se regozija, entre êxtases de prazer, de ver sua vítima morta. Ele ri,
gargalha, adora matar !!!
Vindo das profundezas da sua mente, o mais
primitivo animal humano toma conta da situação. Ele descarrega todos as balas do
revolver em sua vítima. Em pânico, duas criânças, num intervalo de 25 anos, fogem a
chorar, traumatizadas com tanta violência.
Depois, entre gritos de prazer e ódio, ele
esmaga o corpo de sua vítima com o cano. É o selvagem agindo por instinto, como agiam
seus antepassados caçadores milhares de anos antes, esmagando a cabeça de sua presa com
uma clave de pedra.
Por fim, o selvagem comemora a morte do pai,
do assassino e do pacifísta. Finalmente ele estava livre e adorava matar !!!
O homem é o único animal que mata, não
por necessidade, mas por prazer.
Sua única lembrança: dois homens estirados
no chão com uma bala entre os olhos. Silêncio ! Sangue ! Dor ! Morte !
O pacifísta estava morto. O assassino estava morto. Seu pai estava morto. Ele
matara o pacifísta que matara o assassino que matara o seu pai. Era só o que se lembrava
dos seus anos de não violência...
F.C.Dafico - 1980
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