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REFLEXOS

- Marx, você me ouve ?  Marx ?!?  Marx ?!?  Oh, pelos céus, graças a Deus você está aí !!!  Por que não respondeu quando o chamei pela primeira vez ???   Venha cá, Marx, quero ver como você está !  Isto, rapaz, bom garoto !!!

Sabe, Marx, eu não sei o que seria de mim sem você... Acho que teria enlouquecido. Todos esse anos... esta maldita sala... e eles a me perseguirem sempre... sempre... sempre a mesma coisa...

Quem eles pensam que são ???  Por Deus, quem eles pensam que são para fazerem isto comigo ?!?  Mas eu vou lhes mostrar !!!   Eu não preciso deles mesmo !  Eu tenho você, não é Marx ?  Marx !!   Marx !!!  Acorde, homem !!!  Não durma enquanto falo !

Que dia é hoje, Marx ? Segunda ou sexta ?   Será que é dia ou noite lá fora ?  O que você acha, Marx ? Dia ou noite ?

Eu costumava passar horas a fio pensando nestas possibilidades. Horas a fio com um único desejo, uma única e simples - diria até, banal - ambição : saber se era dia ou noite. Saber se a esta hora as pessoas lá fora, pessoas normais e adaptáveis, estão dormindo ou trabalhando... Ou até mesmo se divertindo. Você já pensou nisto, Marx ?!!  Gente se divertindo !!!  Ah ! Como seria maravilhoso poder ver gente viva novamente !!!  Poder abraçar... beijar as pessoas... amá-las !!!  Ou até mesmo só vê-las de longe... se abraçando... beijando... amando...

Vamos lá, não há motivo de choro !!!   Afinal, porque estou chorando ?!?  Eu tenho esta sala que me protege do mundo... Tenho você... Vamos, Marx, diga alguma coisa !  Não fique aí me olhando com esta cara de piedade !  Afinal um homem não pode ter um pouco de nostalgia, sem que todo mundo fique lhe olhando com este ar de velório ?  Vamos homem, diga-me alguma coisa engraçada !  Faça-me rir !

Rir... Você se lembra, Marx, como costumávamos rir olhando um para a cara do outro no começo ?  Sentávamos um de frente para o outro e começávamos a rir. Ríamos como se nossos risos pudessem por abaixo estas paredes. Ríamos... Ríamos... até que, exaustos de tanto rir, caíamos no chão a chorar.

Mas do que adianta chorar num lugar como este ?  Então nos arremessávamos contra os espelhos, gritando e esmurrando-os como se eles fossem a causa da nossa desgraça.

Eu só queria que por um segundo só... que fosse até menos um pouco... mas que só por um instante estes espelhos do diabo parassem de refletir. Mas não !  Eles refletem incessantemente, para onde quer que eu olhe, a minha desgraça !  É como se eles me olhassem dia e noite !!!

Noite... Será que isso ainda existe ?  Oh, meu Deus !  Como eu gostaria de um pouco de escuridão, só para variar !!!

As vezes eu fecho os olhos e penso: quando eu os abrir, as luzes terão se apagado... Mas não ! Elas permanecem acesas como vigias de fogo a queimar minha retina. Acesas !!!  Sempre acesas a iluminar tudo, a queimar meu corpo com a angustia de vê-lo refletido por todos os lados, de todos os ângulos possíveis e imagináveis. Dias e dias sem nem um segundo de privacidade... sem nem um segundo de escuridão...

Por que eles fazem isto comigo ?  Que direito têm eles de fazerem isto ?  Só porque ousei pensar diferente ?  Só porque eu ousei agir diferente ? Malditos sejam eles !!!  Todos eles !!!   Inclusive...

Maria... minha doce Maria... Lembra-se dela, Marx ?  Segura como uma rocha !  Sua voz ecoava no coração da multidão, fazendo-a tremer aos seus pés !  Seus olhos eram como dois faróis a iluminar o caminho a ser seguido !  Sempre forte e decidida, tomando decisões, conclamando a todos para a luta !

Sabe, Marx! As vezes eu me pergunto se algum dia eu cheguei a significar algo de especial para ela... ou se era apenas mais um a ser arrebanhado para a glória do movimento... e sua glória em especial !  Oh, malditas luzes, por que tinham de iluminar meus olhos ?!?

Ela se aproximou, sempre segura e decidida, e me disse que o movimento contava comigo. Me olhava firme nos olhos. Tão firme que para dizer que podia contar comigo, tive de baixar os olhos, senão minha voz não sairia...

E ela contou !  Usou-me de todas as formas possíveis e impossíveis, sugou meu sangue até a última gota de orgulho e dignidade, escravizou meu ser em suas ações e fez de mim o mais bravo "bucha de canhão" que o movimento já conheceu.

E nisso tudo, ainda teve coragem de dizer que amava... Incrível !!!  E ela foi a primeira a me condenar...

Acho que estou escutando alguma coisa... Está ouvindo, Marx? Muito distante, mas bem audível... Vamos, Marx !  Escute !!!

Será que estou ficando louco ?  Escutando sons que não existem... Mas eles existem !!!  E só podem estar aqui, já que a sala é a prova de som.

São tambores... e o som está ficando forte... forte... forte...Parem !!!  Estão me ensurdecendo... Parece que, a cada batida, o meu coração se incha até quase estourar... são tiros de sangue que perfuram minha mente... Explosões de vazio que dominam minha alma rasgando o meu corpo em desespero... Como o som de uma ventania a sair de minhas narinas, marcando, como relógio dos tempos, os segundos eternos que tenho, até a minha morte, de suportar este martírio.

Silêncio !!!  Maldito silêncio dos tempos. Silêncio que a angústia de viver traz no dia a dia dos espelhos. Silêncio de um coração a palpitar como mil tambores de guerra. Silêncio de um pulmão a expelir a ventania de uma tempestade pelas ventas. Silêncio de um louco que nada tem a esperar da vida, senão a morte.

Será que alguém sabe o que é a morte, antes de senti-la fluir lentamente pelos dedos ?...

Um dos primeiros que eles mataram foi meu próprio pai. Ele era contra e sempre seria contra: por isso teve que ser eliminado.

O seu sangue, fluindo em jatos do corpo inerte, lentamente lavou minhas mãos da responsabilidade de sua morte. Seu olhos, frios e fixos, perfuravam meu ser como a espada da vítima que, pouco antes de morrer, consegue dar a última estocada no seu carrasco.

Acho que foi daí que enlouqueci !  O sangue que já havia corrido superava em muito a mais sangrenta das guerras. O cheiro de putrefação, que empregnava os nosso corpos, não provinha somente do sangue de nossos iniciais inimigos, mas também daqueles que nos ajudaram, e agora a nós se opunham.

A lâmina da justiça era forte e afiada. Não poupava ninguém, por mais amigo que pudesse parecer. O mais vil dos crimes - ser um anti-revolucionário - não deveria ser castigado com "penas leves" - como a que nosso antecessores impuseram a nós, rebeldes de então. Afinal, se um homem desaparece, não serve de exemplo; mas se é publicamente morto, o seu sangue lavará a mente dos que ainda tentam se opor.

Irônico, não Marx !!!  E dizer que pouco antes lutávamos, indignados, contra aquilo que agora fazíamos com a prazer de quem tem uma sede insaciável de sangue...

Sangue... fluíndo lentamente pelos meus dedos, impregnando o meu ser com aquele aroma de morte e terror... E nós éramos os anjos da libertação...

Acho que vejo um agora !  A centenas e centenas de reflexos daqui, na direção daquele espelho, Marx. Pode vê-lo ?  Sim, ele mesmo. Cabelos longos, barba por fazer, olhos fixos e silenciosos... anos e anos de observação própria... eu diria que no fundo ele é feliz !  Afinal, quem pode hoje dizer que já foi um anjo, mesmo que da morte ?

Centenas e centenas de quilômetros, por todos os lados, um mundo que não tem fim... Na verdade não passa de uma minúscula sala com espelhos por todos os lados, povoada de seres que não existem, de sons que não se pode escutar, de uma solidão angustiante que só tem sentido na insensatez da minha loucura, na paranóia que me cerca de olhos por todos os lados, na putrefação da minha alma cansada.

Irônico !!!  Simplesmente, irônico !   Anos e anos de evolução, e finalmente cria-se a força revolucionária capaz realmente de mudar o mundo. Seu poder supremo é infinitamente superior a qualquer coisa jamais existente. Sua capacidade de revolucionar tornar insignificante as reformas revolucionárias conquistadas e aclamadas em tempos de outrora. Sua intensidade supera qualquer movimento frívolo que tenha ousado se denominar revolução.

Toda a força e poder, com que jamais sonhara o ser humano, agindo de forma eficiente e rápida... Nunca se mudou tanto em tão pouco tempo !!!

Contudo, tanta força... tanto poder... tantas mudanças... tanta revolução... e não foram capazes de mudar a parte mais importante do sistema: O Homem.

Sem dúvida irônico!!!

Se os filósofos e ideólogos fossem realmente capazes de compreender o homem, e este fosse realmente capaz de se auto-revolucionar, talvez - quem sabe ??? - fosse possível concretizar com êxito os ideais utópicos concebidos nas mentes doentias dos homens sensatos.

Loucura !!! Loucura !!! Tanto sangue... tanta luta... tanta justiça... e o nexo disto tudo é o reflexo da minha insanidade espelhar...

Rosas... Você sente o cheiro das rosas, Marx ?   Você devia ter cuidado dessa gripe há tempos. Não sabe o que está perdendo...

Acho que não existe aroma mais agradável do que o das rosas vermelhas. É algo de sublime... Veja lá aquela, por exemplo. Nota-se claramente o seu aroma divino a intoxicar nossas narinas com o desespero de não senti-la mais.

Será que ainda existem rosas ?  O que você acha, Marx ?... Que besteira a minha ! É claro que ainda existem !!!  Quem seria capaz de acabar com elas ?... Quem seria capaz de matar pessoas inocentes só por serem diferentes... Quem seria capaz de destruir o mundo...

Lembro-me de que, quando criança, era levado a um grande jardim. Era verde, vermelho, azul ... colorido de vida e existência... eu, criatura preto e branco num universo de cores, contemplava perplexo o infinito à minha volta.

Havia uma rosa vermelha - uma gigantesca rosa vermelha - no centro do jardim. Imponente... forte... a gota de um sonho que se concretizava na Terra... Pedaço de um paraíso perdido pelos tempos longínquos...

A sua volta, envoltos em um névoa roxa, terminais de vídeo de um gigantesco computador, contavam repetidamente, em mosaícos de números e letras coloridas, diferentes versões da existência de gnomos corcundas e horrendos a travar uma guerra eterna pela ocupação da Terra.

eu, sem cor em um universo cromado, olhava maravilhado a rosa e os entes que a cercavam. eu a amava em sua utopia e admirava a sabedoria das verdades que os mosaicos mostravam. Em tudo, acreditava eu, a rosa seria a perfeição de um paraíso intangível e os vídeos eram reflexos malditos da existência humana sobre a Terra.

Mas através dos céus existia a força e o poder de um cavaleiro a me impedir de adorá-la. Flutuando sobre o universo; luminoso sob sua armadura de vidro e espelho, impassível ante o brilho do seu escudo de justiça, poderosamente sábio a empunhar a espada dos tempos; ele a guardava do mundo e o mundo dela, pois um não era para o outro.

Até que um dia, preto e branco eu, colori-me de audácia e ousei adorar a rosa... Nada aconteceu !!!  Aparentemente tudo continuava como antes.

Então, ousei mais: ultrapassei os vídeos, envolvi-me pela névoa adentro e aproximei-me dela. Sob suas pétalas, fitei o mundo e o cavaleiro, mas tudo que me era permitido ver era o seu semblante petular vermelho.

A névoa subia e me asfixiava em admiração e glorificação à rosa. Assim, em minha insanidade, toquei-a.

Olhei para cima e uma gota de sangue caiu nos meus olhos. Havia furado o dedo em um espinho, e o sangue corria aos jatos pelo meu corpo.

A névoa se tornou viva em seu vermelho mais rubro e os gnomos se materializavam dos mosaicos nos vídeos. O sangue agora corria por todos os lados!

Curiosamente o cavaleiro saiu de sua impassibilidade magistral. Em posição de combate, lutava nervosamente contra um inimigo invisível. Sua espada, a desferir golpes mortais, singrava o espaço em busca do corpo adversário para aniquilar. Nada encontrava, contudo !  O inimigo não estava a sua volta, mas dentro dele !!!

Na Terra, os gnomos corriam em sangue, degladeando e se matando uns aos outros. Até que, sobrevivendo poucos perdedores, eles se regozijaram com o sangue derramado. Então, o cavaleiro em um golpe certeiro, cravou a espada no vazio de seu inimigo. Vagarosamente veio abaixo, derrubado pelo sangue que lhe penetrava pelas botas.

A espada cravada em seu coração explodiu-lhe a armadura de vidro e espelho em milhões de fragmentos. Nú, o cavaleiro morto estava com a cara atolada na lama sangüenta.

Por fim, restava a rosa... e a igualdade eterna... Os fragmentos da armadura constituíram um bolha espelhada e isolaram eternamente o cavaleiro e seu inimigo...

Creio que sei quem sou !!!  eu sou o cavaleiro e você, Marx, o meu inimigo eterno !!!  Reflexo de minha sensatez insana, simplesmente eu refletido no espelho...

Boa noite, Marx!!! Até amanhã...

F.C.Dafico - 1981

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