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UM HOMEM CHAMADO URBANO

A câmera roda a cidade por entre as suas lentes, comendo os detalhes, eternizando as formas, preservando o ser. No preto e branco da película, as cores imortalizam a negritude da cidade, mostrando a alma do defecto de concreto tecnológico.

O céu é cinza, o asfalto é negro e as almas dos bípedes humanóides, que freneticamente se arrastam por entre os carros, são brancas: não de pureza, mas de ausência. Animais massificados e doutrinados: só lhes é permitido a ausência na alma

Carros velozes atravessam a objetiva em slow motion, vindo explodir em sangue, fumaça e dor. A tela fica vermelha!. A cidade pára, olha e prossegue o seu caminho.

Chumbo derretido cospem armas em fogo, roubando dinheiro, relógios e vida, por entre os raios de luz que tocam a película cinzenta. A tela fica vermelha!. A cidade pára, olha e prossegue o seu caminho.

A câmera torna a dar uma geral pela cidade em chamas de por do sol. O diretor vibra, a equipe faz festa ! Por entre a fumaça escura da noite urbana, uma figura apática não se faz notar. Eis o nosso herói !

Olhar profundo, corpo cansado, mente massacrada. O homem caminha lentamente por entre as frestas da noite, voltando de mais um dia de trabalho suado - mais uma semana de árduo labor - para o abençoado lar da solidão.

Bendito fim de semana !  Tão esperado !   Tão desejado !  Tão ansiado ! Porque tinha de chegar ?

O homem, típico urbamóide, segue por entre as veredas da selva de concreto .

- E imaginar que eu falei com ele ontem... Estava tão calmo... tão alegre... Quem poderia pensar que faria uma coisa dessa ! Ah, meus Deus ! Um homem tão bom... Eu... sabe ! Até me convidou para sair com ele hoje. Mas eu já estava comprometida...

A maior pergunta que sempre se fazia não era porque havia nascido ou a razão da sua existência. Não ! Nunca fora filosófico ou suicida - difícil diferenciar um do outro. Portanto não se preocupava com tais profundezas existenciais ! O que mais lhe intrigava era saber se algum dia iria deixar de se sentir tão só com tanta gente à sua volta.

E neste sinal vermelho ele pára todos os dias de volta para a casa. E enquanto a luz vermelha ensangüenta a tela, o urbanóide aprecia o vaivém dos animais de lata e borracha pelo cinza-negro da cidade em preto e branco.

- Urbano sempre foi um solitário. Calado... sério. Como uma ilha !!! As vezes ele descia uma ponte e chegava ao continente. Então ele ria, brincava, se divertia... Mas depois voltava para a sua ilha interior... para a sua solidão... eu acho que, no fundo todos nós somos meio iguais a ele ... solitários... suicidas....

Será que alguma vez na vida já tivera um amigo ? Mas um amigo de verdade ! O menino bobo, cheio de brinquedos, sempre teve muitos companheiros que vinham estragar suas coisa. O estudante regular, que sabia um pouco da matéria, sempre teve colegas para colar dele. O chefe da seção, burocrata exemplar, sempre teve subalternos a bajulá-lo. Mas e Urbano, o homem, será que alguma vez na vida tivera um amigo ?

E neste trânsito tresloucado, a vida vai passando os seus dias, como para o menino bobo que virou estudante regular, que virou chefe de seção e que é Urbano, olhando maravilhado a cidade do alto da sua janela.

- Como mãe, eu sempre fiz tudo para ele ser feliz. Mas, você sabe, a gente não pode deixar um menino desses fazer tudo o que quer. Quando ele foi para a cidade eu disse: "Não vá, Urbano ! Aqui você tem sua família... sua casa... " Mas não houve jeito: deu uma sapituca nele e não houve santo que o segurasse ! De vez em quando ele voltava para ver a família. Aí era uma festa ! Brincava com os sobrinhos... Conversava com os irmãos... Mas era só alguém perguntar por que ele ainda não havia se casado, que ele emburrava. No dia seguinte ia embora.

Estivera para se casar uma vez. Era uma moça boa, de família.... Mas, quando chegou a hora de escolher entre a moça e a boêmia, preferiu a segunda.

Soube mais tarde que ela se casou com outro. Estava gorda... cheia de filhos... Mas, mesmo assim, feliz.

Talvez tivesse sido feliz com ela. Pelo menos, não se sentiria tão só...

Ah, solidão miserável !!! Arranca-lhe as entranhas, tampa-lhe os poros, sufoca-lhe a garganta ! Depois, mata o corpo e liberta a alma, pois o homem é um prisioneiro do seu eu.

E por este caminho a trombada foi fatal. Os dois carros se chocaram de frente, voando estilhaços para todos os lados. Urbano se afastou da janela sentou-se na poltrona. Nunca gostou de ver sangue.

- Dizem que as pessoas, depois de mortas, viram santas. Não Urbano! Sempre foi um diabo. Não mais do que qualquer um de nós, mas um diabo. Gostava de beber, jogar e, naturalmente, de mulheres. Mas depois acho que foi se cansando... Parou de estar com a turma... É verdade que depois de algum tempo ele era o único solteiro... ficava os fins de semanas inteiros encafuado naquele apartamento sem sair para lugar nenhum. Minto ! Às vezes ele aparecia, mas já não era a mesma coisa. Era com se ele fosse um estranho com um rosto conhecido. De qualquer forma , as coisas já não eram as mesmas ! Acho que no fundo o que faltou foi alguém que o amasse. E agora isso! Quem diria ...?!!!

O bater seco do relógio pesava milhões de vezes no corpo cansado de Urbano. Séculos a fio se passavam por entre os segundos de inexistência. "Quem diria... !!! Quem diria...!!!" teimava em repetir as horas da eternidade.

Deitado no seu leito de morte, o homem dissolvia-se em solidão e desespero, esmagado pelo peso da existência. Sua mente supurava pelo corpo afora, por entre as fendas da desilusão. Ainda estava vivo: esta sim, sua maior decepção...

Pegou a caderneta de endereços e abriu na letra M. Pegou o telefone e discou.... Talvez, quem sabe, não fosse assim tão sozinho.

- Era umas duas horas quando ele me ligou. Sua voz estava tensa... Parecia que queria dizer alguma coisa muito importante, mas não tinha coragem. Não dizia coisa com coisa. Chegou até a me pedir em casamento. Eu tentei conversar com ele, mas ele não me ouvia. Tentei explicar que não daria certo, mas ele só sabia repetir três coisas: "Escute-me... toque-me... sinta-me...". Por fim, ele me pediu para ir lá, pois algo de muito importante estava para acontecer. Eu disse que não, pois estava muito tarde. Então ele disse : "Que pena ! Você não me sentiu !" e desligou o telefone. Foram as suas últimas palavras... Creia-me ! Se eu soubesse, teria ido !

A medida que o aparelho de telefone ia descrevendo o seu vôo pelo espaço, a vida ia se esvaindo daquele apartamento... Como o vôo do aparelho cujo destino era estatelar-se contra a parede, o destino final da vida é a morte... Mas antes disso a campainha toca.

-Eu sabia que você viria ! - disse Urbano alegremente - sabia que você ia me sentir ! Mas entre ! A casa é sua ! Aliás, há muito que ela é sua. Aceita um drinque? Oh, desculpe-me ! Eu esqueci que você não bebe.

-Alegre por me ver ? - indaga a visitante.

-Você é tão bela !!! Tão radiante !!! Acho que me apaixonei por você ! Aqueles tolos ! Nenhum deles teve sensibilidade para me entender, mas você... Toque-me ! Sinta-me ! Eu não sou desprezível ! Alguém me quer: Você !

-Você não é desprezível ! Claro que o quero ! - fala docemente a visitante.

-Está escutando ? Está música... é tão... dance comigo ! Feche os olhos ! Imagine nuvens sob os nossos pés. Nada mais existe a não ser o momento. Nenhum momento existe, a não ser o prazer de tê-la.

- Você me tem !!! Sou sua como a vida que não mais existe.

- O quê você tem em mente ?

- Eu nada ! Você ! Sou sua serva: sirva-se de mim como bem quiser !

- No íntimo de minha solidão mental eu tinha um fetiche. Imaginava-me voando a velocidades jamais mentalizadas pelos céus da eternidade. Embaixo, todos os que me renegaram vendo me ser mais eu na sensação não sentida. Então como uma águia eu mergulharia sobre eles, descrevendo o fogo da trajetória não descrita, e em suas presenças, para desespero total, eu me chocaria com o murro da verdade. A explosão os lançaria a quilômetros de distância . E então eu seria importante, pois todos, a despeito de tudo, tentariam me salvar. Mas na paz da minha destruição - sentindo o prazer da morte penetrando por minhas entranhas - eu me gargalharia deles e de suas vãs tentativas de me salvar. Finalmente, por entre choros e lágrimas, eu atravessaria o fogo final e com, minha mão gélida e com meus lábios duros de defunto queimando, tocaria e beijaria cada um deles e desaparecia com a pergunta no ar; "Por quê não me sentiram ?".

- É assim que você deseja?

- Não ! Nada tão espalhafatoso ! Eu só queria saber o que meus amigos dirão amanhã !

A câmera roda a cidade por entre suas lentes, comendo os detalhes, eternizando as formas, preservando o ser. Por entre as sombras dos prédios um novo dia começa a nascer. Um sábado maldito como outros anteriores mistura-se com o pouco movimento dos urbanóides.

Um grito mistura-se com a sirene ensangüentada de uma ambulância que cruza o espaço focal das objetivas. No "Black and White" do filme de um apartamento, um corpo é encontrado morto com um tiro na cabeça.

Os amigos se agrupam por entre o equipamento de filmagem comentando a existência de quem nunca existiu.

A câmera envolve o homem - típico urbanóide - dando voltas e mais voltas, piruetas e acrobacias em velocidade cada vez maior, unindo imagens, sobrepondo presente e passado, eternizando a existência. Por fim, vai se afastando pela janela mais próxima, gravando as sensações de todo um apartamento, todo um prédio, toda uma cidade, todo um defecto de concreto tecnológico.

Resta, então, apenas uma imagem de bela mulher radiante a sair lentamente do prédio: A MORTE !!!

- Eu só queria saber o que dirão os meus amigos amanhã ! - diz o diretor, maravilhado com sua obra...

F.C.Dafico - 1981

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